terça-feira, 2 de abril de 2013

O Cara de Pau


Pele de Asno. Gravura de Gustave Doré.

UM rei tinha uma filha tão formosa que, ficando viúvo, quis casar-se com ela. A moça era afilhada de Nossa Senhora e ficou horrorizada com o pensamento do pai, mas esse ameaçou-a de morte se não o recebesse por marido. Não sabendo o que fazer, a moça rezou muito a Nossa Senhora pedindo seu auxílio e ouviu umas vozes dizendo:

 Pede um vestido cor do campo com suas flores!

A menina pediu o vestido e o pai mandou fazer e o trouxe feito, tão bonito que era uma maravilha. Outra vez foi a menina chorar e as vozes disseram :

 Pede um vestido da cor do mar com todos os peixes.

Feito o pedido, o rei juntou todos os artistas e conseguiu o vestido como era desejado. Novamente a menina correu aos pés de Nossa Senhora e as vozes ensinaram:

 Pede um “vestido cor do céu com suas estrelas, o sol e a lua”.

A menina pediu o vestido e o rei, querendo casar com ela, mandou que se fizesse sob pena de morte. O vestido ficou lindo e a princesa chorou muito lembrando-se de que seu pai havia de querer o cumprimento de sua promessa. As vozes voltaram a dizer-lhe:

— Junta tudo quanto for teu e foge do palácio. Para que ninguém saiba quem és, nunca deverás rir nem achar graça em cousa alguma.

A moça guardou os vestidos numa maleta e fugiu do palácio, indo pelas estradas o mais longe que lhe foi possível. Andou muito e chegou a uma cidade onde procurou trabalho para viver e só encontrou lugar no palácio do rei como ajudante na cozinha. Aceitou e ficou com as tarefas mais pesadas e humildes da casa. Como vivia sempre sisuda e não achava graça em cousa alguma, chamavam-na Cara de Pau.

Uma vez o rei preparou festas para os amigos e as moças todas da cidade deviam comparecer aos bailes que durariam três dias consecutivos.
Quando do primeiro baile, todos foram olhar a festa das salas, e Cara, de Pau ficou na cozinha, lavando as panelas. Vendo-se sozinha, correu ao seu quarto e vestiu-se com o vestido da cor do campo com suas flores, e compareceu ao salão, causando admiração a todos. O príncipe veio falar-lhe, prestando muita atenção e convidou-a a dançar com ele várias vezes.

Antes que o baile terminasse, Cara de Pau abandonou o salão e fugiu para seu quarto onde voltou a vestir as roupas remendadas de criada.

As criadas e cozinheiras conversaram sobre a moça da noite anterior e Cara de Pau não dava mostras de entender o que diziam. Na noite segunda fez o mesmo e o vestido cor do mar com todos os seus peixes causou admiração ainda maior.

O príncipe, desde que a viu entrar, não mais a deixou, conversando com ela e dançando, a perguntar seu nome, de onde era, etc. A moça respondia por meias palavras e o príncipe estava verdadeiramente apaixonado por ela. Com habilidade conseguiu fugir antes do baile acabar e tornou às roupas feias com que servia na cozinha.

Na última noite Cara de Pau foi a rainha da festa, com seu vestido cor do céu, com suas estrelas, o sol e a lua, dançando bem e agradando a todas. O príncipe, enamorado, deu-lhe um anel, pedindo-lhe a mão em casamento. Cara de Pau disse que ia pensar, esperando que o príncipe provasse que a amava deveras. Ainda uma vez pôde fugir sem ser apanhada.

O príncipe procurou Cara de Pau por todos os recantos e casas da cidade, mandando escrever para outros reinos e ninguém dava notícias. De paixão, adoeceu e não queria comer. Ia enfraquecendo e os pais ficaram tristes porque não havia médico que acertasse em curar o príncipe. A rainha pensou em mandar fazer iguarias por todas as criadas da casa, uma de cada vez, para ver se o filho comia alguma cousa. Fizeram todas as criadas bolos e rebuçados mas o rapaz ia provando e recusava servir-se. Cara de Pau ofereceu-se para fazer um bolo e a cozinheira ficou zangada com o atrevimento: Pois logo você, uma suja e porcaIhona, ir fazer bolos para o príncipe?

A rainha velha, então, disse que Cara de Pau fizesse um bolo como as outras tinham feito. Cara de Pau fez o bolo com cuidado e meteu dentro da massa o anel que o príncipe lhe havia dado. Cozi do o bolo e mandado para a mesa do príncipe este apenas o olhou, mas a rainha tanto pedia que ele provasse que o rapaz cortou uma fatia e levou-a à boca. Logo sentiu um duro, e verificando reconheceu o anel que dera à moça dos três bailes. Ficou logo melhor de saúde, perguntando quem fizera o bolo e que viesse imediatamente à sua presença. A rainha mandou chamar criada que fizera o doce e quando chegou Cara de Pau ao quarto, tirou o vestido sujo e apresentou-se com um dos vestidos da festa. O príncipe beijou -lhe a mão e apresentou-a a todos como sua noiva. Casaram-se e viveram muito felizes.

Nota de Câmara Cascudo: O narrador A. P. não informou onde ouvira a história. Alfredo Apell, "Contos Populares Russos", resume uma variante do Algarve, muito semelhante no nome e sucessos. O mesmo autor dá três versões russas, Pele de Porco, O príncipe Daniel Govorila, A filha que não queria casar com o pai, indicando variantes russas (Afanasiev), lituanas (Schleicher), grega (Hahn), valáquia (Schott) gaélica (Campbell), siríaca (Prym-e-Socin), alemã (Grimm). Ocorre num conto de Straparola (N. 1. Fab. IV) e Collin de Plancy dizia ter tido origem na vida de Santa Dinfne, desejada pelo pai, venerada a 15 de Maio. Marian Roalf Cox compendiou setenta e seis variantes da Pele de Asno, que Charles Perrault deu forma poética no Peau D’Ane. Nesta fonte não há o episódio dos três bailes, mas há a identificação pelo anel caído na massa do bolo que o príncipe comeria. P. Saintyves estudou o assunto na sua análise sobre os contos de Perrault, dando Peau D’Ane como representação simbólica da primavera, rainha do carnaval. As variantes portuguesas são incontáveis. Marión Roalf Cox demonstrou que Peau D’Ane e Cendríllon, a nossa Gata Borralheira ou Maria Borralheira, formavam originariamente um único conto. No Brasil, Sílvio Romero colheu a versão Dona Labismina, IX, onde não há o desejo incestuoso. Labismina manda um caldo com a jóia que recebera do príncipe, reconhece-o este e se casa com ela. É, incontestavelmente, variante do conto algarvino. No meu Vaqueiros e Cantadores estudei uma versão poética, O pai que queria casar com a filha, encontrada por Rodrigues de Carvalho no Ceará (Cancioneiro do Norte). Uma das origens literárias, depois esparsa no fabulário popular, é a lenda La filie aux mains coupées, já impressa no século XV, cuja influência temática é incalculável nos contos e romanceiros. Puymaigre a estudou excelentemente no seu Folk-Lore, 2153-277, Paris, 1885. Não conheço versões portuguesas da Virgem sem mãos. Na Espanha, Espinosa recolheu quatro variantes, La Niña sin brazos, em Zamora, Ávila, Cuenca e Toledo, II, 99, 100, 101 e 102, Mt. 76 de Aarne-Thompson. O assunto explicou o velho e querido romance Delgadina e em algumas versões de Sylvana, igualmente popular em Espanha, de onde se espalhou para toda América. No Brasil, de Portugal recebemos o Delgadina, colhido por Pereira da Costa em Pernambuco (Folk-lore Pernambucano). Julio Vicuña Cifuentes encontrou sete versões no (Chile (Romances Populares y Vulgares), Juan Alfonso Carrizo três outras na Argentina (Cancionero Popular de Tucuman), Vicente T. Mendoza compendiou umas quinze, no México (Romance y Comdo). Menendez y Pelayo julgava provável que a origem do Delgadina fôsse o tema de la niña de las manos cortadas, onde o pai incestuoso é a razão decisiva do sofrimento da filha, Orígenes de la Novela, 1, LXVII. Cara; de Pau é uma dessas modificações, de legítima. dinastia medieval. O mundo feudal acha-se ali retratado na sua crueza; o marido sacrifica a mulher à sua brutalidade, como na Griselidis; o pai deseja com sensualidade de porco a filha, que se defende com subterfúgios, como "Peau d’Ane". Teófilo Braga, Estudos dia Idade Média, 64. 

Fonte: Os melhores contos Populares de Portugal. Org. de Câmara Cascudo. Dois Mundos Editora.

Nota de Marco Haurélio: Na obra Contos folclóricos brasileiros (Paulus, 2010), incluí uma versão, Cara de Pau, narrada por meu pai, Valdi Fernandes Farias, mais completa do que a portuguesa acima reproduzida. Há o motivo do helpfull horse (o cavalo como animal auxiliar), no conto chamado pela heroína de "cavalo da crina marinha. Nossa Senhora é substituída por uma velhinha, imagem ancestral da Grande-Mãe.

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