quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Boas novas da Velha Bahia


Dona Enedina, grande contadora de histórias
Estivemos na Bahis por quase um mês. E foram muitas, muitas histórias. Histórias engraçadas, exemplares, encantadas.


Histórias de vida, como a de seu Abílio, de Bom Jesus da Lapa, que sabe cor todo o texto da cavalhada local e rememora, saudoso, o tempo em que, metido na indumentária do rei mouro, montava o cavalo Ginete.


Histórias de rachar o bico, como as de seu Arnaldo Hãe Hãe Hãe, cacique pataxó do Caldeirão Verde, mestre nos ofícios da narrativa e da esculturaem madeira, fonte de uma história que batiza um de meus livros: O urubu-rei


Histórias como "Couro de Piolho, "Bu" e tantas mais, narradas por dona Enedina, do Alto da Palma, que tiveram como música de fundo o São Francisco, o rio de sua aldeia.


Histórias como as de seu Zé Cabeça, da Agrovila 07, 108 janeiros de muita sabedoria.


Histórias de Isaulite Fernandes Farias,Tia Lili, da Ponta da Serra, fonte de muitos contos que publiquei.


Histórias de dona Lira, cantadeira de romances e rezadeira notável, que me benzeu dos quebrantos e dos olhares maléficos. Dona Lira é cega de nascença, assim como sua irmã, dona Nenzinha. 

Herdaram a deficiência da mãe e são parceiras de escuridão de mais dois irmãos (um já falecido). São parceiras também na arte de encantar.

Personagens quase invisíveis nas comunidades em que vivem, porque, infelizmente, no sertão, já se cultivam hábitos e trejeitos cinzentos, que, sabemos, levam do nada a lugar nenhum.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Até breve, D. Maria Rosa

Tecelã de lindas histórias.
"Morreu dormindo, como um passarinho". Assim minha amiga Giselha Rosa Fróes narrou  o falecimento de sua avó, Maria Rosas Fróes, ocorrido na noite do dia 12 de fevereiro, em Brumado, Bahia. 

Dona Maria, mestra da cultura brumadense, baiana, brasileira, universal, contadora de histórias, cantadeira de romances, benzedeira, devota de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, era uma pessoa singular. 

As histórias das quais foi retransmissoras estão registradas nos livros:

Contos folclóricos brasileiros (Paulus, 2010);
Contos e fábulas do Brasil (Nova Alexandria, 2011);
O Príncipe Teiú e outros contos brasileiros (Aquariana, 2012);
Contos e lendas da Terra do Sol  (com Wilson Marques, Folia de Letras, 2014).

Viveu 97 primaveras e, sem saber ler nos livros, lia o mundo como poucos.

Fica a homenagem. A tristeza é provisória, mas a gratidão é eterna.

Em 2005, quando gravei as histórias de D. Maria.




quarta-feira, 14 de maio de 2014

Um tesouro da Costa Rica que o Brasil desconhece

Por Marco Haurélio.

Para quem leu as notas dos Contos Tradicionais do Brasil, de Câmara Cascudo, o nome de Carmen Lyra não soa estranho. Autora de Los Cuntos de mi Tia Panchita, coletânea de contos tradicionais da Costa Rica, sua terra natal, Carmen Lyra (1887-1949) é praticamente desconhecida no Brasil. Que eu saiba, jamais houve tradução desta obra, publicada em 1936, para o português, exceção feita ao conto El tonto de las adivinanzas, incluído por Aurélio Buarque e Paulo Rónai num dos volumes deMar de Histórias, talvez pelo fato de o protagonista ser o nosso João Grilo, celebrado na tradição popular, no cordel (por autores como o clássico João Ferreira de Lima e o contemporâneo Pedro Monteiro) e na peça Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna.

Mas há muito mais tesouros na coletânea.  La negra y La rubia é a versão costarriquenha de CinderelaEl pájaro Dulce Encanto,com a história do rei cego e do príncipe que sai em busca de um remédio para o pai, revive o livro bíblico de Tobias, sem faltar sequer o motivo do morto agradecido que salva o protagonista da traição dos irmãos invejosos. Com início semelhante, mas desfecho diferente, La flor del Olivar traz o motivo do osso que canta (para revelar um crime), presente nos Contos dos  Grimm e em inúmeras outras coletâneas. Uvieta, a história do sujeito aparentemente simplório que presta favores a personagens sagrados, recebendo em troca o dom de fazer entrar em um saco tudo o que ordenar, é o nosso velho João Soldado, importado de Portugal, cujo nome não é indiferente a quem leu o clássico da literatura de cordel escrito por Antônio Teodoro dos Santos. E ainda temos La cucarachita Mandinga, um simpático conto de fórmula (acumulativo), que vem a ser a nossa Dona Baratinha (ou Carochinha) que desposa o desventurado João (ou Dom) Ratão (Ratón Pérez na história compilada por Carmen Lyra).

quinta-feira, 20 de março de 2014

Parabéns, Bráulio do Nascimento


Não poderia ser mais apropriado: no Dia Internacional do Contador de Histórias (ou Dia Mundial da Narração Oral), 20 de março, o eminente folclorista Bráulio do Nascimento, responsável pela catalogação do conto popular brasileiro e autor de vários estudos que abrangem a contística popular, o romanceiro e a literatura de cordel, completa 90 anos de muita iluminação.

Parabéns, professor!

Catálogo do conto popular brasileiro.


A extraordinária Luzia Teresa



No Dia Internacional do Contador de Histórias, comemorado hoje, 20 de março, homenageio aquela que foi, comprovadamente, a maior narradora de contos da tradição oral deste planeta. Luzia Teresa dos Santos (1911-1983), paraibana de Guarabira, narrou ao saudoso folclorista Altimar Pimentel impressionantes 242 histórias (ou "estórias", como ele grafava), divididas em cinco volumes, três deles publicados pela Thesaurus Editora, de Brasília, dois ainda lamentavelmente inéditos. 

No seu leito de morte, em um hospital de João Pessoa, esta extraordinária mulher, que jamais aprendeu ler e escrever, dizia ainda conhecer muitas outras histórias.


Lembrá-la neste dia 20 de março é o maior preito que posso fazer à sua memória. E também à memória do notável folclorista alagoano Altimar Pimentel (1936-2008), o maior coletor de histórias populares deste país. De sua recolha, destaco, além dos três volumes publicados de Estórias de Luzia Teresa, Estórias de Cabedelo, Contos Populares de Brasília e Estórias do Diabo, todos publicados pela Thesaurus Editora

domingo, 23 de fevereiro de 2014

As origens da canção Couro de Boi

Teddy Vieira, coautor de Couro de Boi

Na obra Música Caipira – as 270 maiores modas de todos os tempos, o jornalista José Hamilton Ribeiro, comentado a canção “Couro de Boi”, de Palmeira e Teddy Vieira, diz tratar-se de “uma fábula de família, com todo o jeito de ser algo imemorial, que passa de geração a geração”. E, mesmo sem ir além da especulação, ele está certo. Na França, no séc. XIX, Joseph Bédier, autor da versão literária de Tristão e Isolda, incluiu a história do velho que é expulso de casa pelo filho ingrato entre os fabliaux de sua terra. O professor Bráulio do Nascimento informa que o conto-tipo A Manta Partida (O Filho Ingratofigura no Livro dos Exemplos por ABC, de Sanchez Vercial, e no Espéculo de los Leigos, anteriores ao século XVI". O pai é abandonado pelo filho desnaturado numa montanha. Recebe deste uma manta, mas, antes que ele se vá,  o velho divide-a ao meio, recomendando-lhe que a guarde para a velhice, para quando o seu filho o trouxer para o mesmo local.

Nos Kinder-und Hausmärchen, dos Irmãos Grimm, a versão é O Filho Ingrato, na qual o filho esconde um frango assado do pai, já bem velhinho. O frango, por castigo, se transforma num asqueroso sapo que se agarra ao rosto do malvado, para nunca mais soltar. Mais próxima das versões brasileira, classificada como AT 980, é O Avô e o Netinho, também constante da célebre antologia dos Grimm. O velho é malquisto do filho e da nora, e, quando deixa cair uma tigela de sopa, as coisas só pioram. É-lhe oferecida outra tigela de madeira, simples e grosseira, aumentando mais ainda a humilhação. O netinho de quatro anos começa a juntar pedaços de madeira do chão e, indagado pelo pai, diz que está fazendo uma gamela “para dar de comer a papai e a mamãe quando eu for grande”.

No Brasil, foram recolhidas versões por Câmara Cascudo (em Natal) e Waldemar Iglésias Fernandez (em Piracicaba). O cancioneiro caipira que, como o cordel, bebe na fonte imaterial da tradição, conservou a versão em que a manta é substituída pelo couro de boi, comprovando o poder da pecuária, dando coloração local a um tema universal. Abaixo, a bela letra de Teddy Vieira e Palmeira:

Conheço um velho ditado

Que é do tempo do zagai:

Um pai trata dez filho,

Dez filho não trata um pai.


Sentindo o peso dos anos,

Sem poder mais trabalhar,

O velho peão estradeiro

Com seu filho foi morar.

O rapaz era casado

E a mulher deu de implicar:

Você manda o velho embora

Se não quiser que eu vá.

E o rapaz, coração duro,

Com o velhinho foi falar:


Para o senhor se mudar

Meu pai eu vim lhe pedir,

Hoje aqui da minha casa

O senhor tem que sair.

Leva este couro de boi,

Que eu acabei de curtir,

Pra lhe servir de coberta

Adonde o senhor dormir.


O pobre velho calado

Pegou o couro e saiu.

Seu neto de oito anos,

Que aquela cena assistiu,

Correu atrás do avó,

Seu paletó sacudiu,

Metade daquele couro,

Chorando, ele pediu.


O velhinho comovido

Pra não ver o neto chorando,

Partiu o couro no meio

E pro netinho foi dando.

O menino chegou em casa,

Seu pai foi lhe perguntando:

Pra que você quer esse couro

Que seu avô ia levando?


Disse o menino ao pai:

Um dia vou me casar,

O senhor vai ficar velho

E comigo vem morar.

Pode ser que aconteça

De nós não se combinar,

Esta metade do couro

Vou dar pro senhor levar.

Couro de Boi (Filho Ingrato) nas vozes de Tonico e Tinoco.



terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O macaco que pediu sabedoria a Deus

Ilustração de Maurício Negro

O macaco foi até onde estava Deus para Lhe pedir sabedoria.

Deus o recebeu, ouviu sua solicitação, mas em troca pediu que o bicho Lhe trouxesse uma xícara de leite de onça e três ovos de jacaré.

O macaco aceitou a proposta e foi para a mata esperar a melhor oportunidade de passar a perna na onça.

Quando a bicha se aproximou, ele trepou numa árvore e começou a tirar cipó. Cismada com aquilo, a onça lhe perguntou:

— Ô, amigo macaco, por que você está tirando tanto cipó?

— Então a amiga onça não sabe? Está vindo uma grande tempestade de vento, e quem não se amarrar bem forte será jogado no mar.

A onça, então, morta de medo, implorou:

— Já que o amigo é mais jeitoso, deve me amarrar numa árvore e depois se amarrar noutra.

O macaco mandou a onça levantar as patas dianteiras e amarrou com tanta força que ela mal se mexia. Em seguida, amarrou as traseiras e, sem que ela reagisse, ele tirou uma xícara de leite. Para terminar, mamou até se fartar e ainda deu uma surra na onça antes de ir embora.

Em cima da árvore, observando tudo, estava um sonhim. Assim que o macaco saiu, ele desceu e mamou na onça também. A onça ficou muito envergonhada por ter caído naquela armadilha.

Agora só faltava o macaco conseguir os ovos de jacaré. E lá foi ele, disposto, em direção ao rio, onde encontrou um jacaré chocando os ovos. O macaco, depois de cumprimentá-lo, disse:

— Amigo jacaré, embaixo da ponte está havendo uma festa de cabrito. Você não vai?

O jacaré se jogou na água e foi em busca da tal festa. Enquanto isso, o macaco apanhou três ovos e a xícara e foi à procura de Deus para entregar os presentes e receber , em troca, a sabedoria. Mas Deus, vendo o macaco chegar, foi logo dizendo:

— Macaco, não posso lhe dar sabedoria, pois você já é sabido demais!

Informante: Cassiano Fonseca (Maroto) - Igaporã, Bahia

Publicado em Contos folclóricos brasileiros (Paulus, 2010)


Reproduzido originalmente no blog Histórias em movimento.