segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Catálogo dos Contos Tradicionais Portugueses


Chegou-me às mãos, direto de Portugal, de autoria de Isabel Cardigos e Paulo Jorge Correia, o monumental Catálogo dos Contos Tradicionais Portugueses, em dois volumes, totalizando quase 2000 páginas, resultado de vinte anos de trabalho. Alicerçado no Sistema ATU, reúne versões de variadas coletâneas e informações de versões análogas dos países lusófonos. Colaborei com o presente trabalho enviando narrativas recolhidas, a maioria, no interior da Bahia, hoje publicadas nos livros Contos Folclóricos Brasileiros (Paulus, 2010), Contos e Fábulas do Brasil (Editora Nova Alexandria), 2011) e O Príncipe Teiú e Outros Contos Brasileiros (Deleitura), 2012). Vale ressaltar que, nos dois primeiros, o professor Paulo Correia foi responsável pelas notas e classificação ATU.

Quem pode falar com mais autoridade sobre esta importante publicação é José Joaquim Dias Marques, fundador do Centro de Estudos Ataíde Oliveira, um dos grandes estudiosos da tradição oral de Portugal:

"Saiu há pouco e está agora em distribuição o Catálogo dos Contos Tradicionais Portugueses (Com as Versões Análogas dos Países Lusófonos), Faro, Centro de Estudos Ataíde Oliveira / Porto, Edições Afrontamento.
Da autoria de Isabel Cardigos e Paulo Correia, investigadores do Centro de Estudos Ataíde Oliveira (Universidade do Algarve), a obra é composta por dois grossos volumes, de 953 pp + 895 pp. (ISBN do vol. I: 978-972-36-1407-7, ISBN do vol. II: 978-972-36-1455-8).
Fruto de 20 anos de pesquisas (que, em 2006, já deram o Catalogue of Portuguese Folktales, espécie de primeira versão, mais curta e em inglês, do I vol. desta obra), o Catálogo dos Contos Tradicionais Portugueses é um verdadeiro monumento, sem dúvida uma das mais importantes realizações de toda a história da pesquisa portuguesa sobre literatura oral.
O vol. I é constituído pelo catálogo propriamente dito, que, adotando os números e títulos atribuídos pelo catálogo internacional do conto tradicional, de Aarne-Thompson-Uther, inclui todos os contos conhecidos na tradição oral portuguesa, apresentando um resumo de cada um e listando todas as versões publicadas desse conto (em livros ou artigos), seja as versões recolhidas em Portugal, seja nos restantes países lusófonos, nomeadamente no Brasil. Na bibliografia de cada conto, listam-se também as numerosas versões inéditas guardadas no arquivo do Centro de Estudos Ataíde Oliveira, recolhidas pelos alunos da disciplina de Literatura Oral da Universidade do Algarve, desde 1995 até ao presente.
O vol. II da obra é constituído por uma riquíssima antologia de toda a tradição contística portuguesa, em que cada conto (classificado no vol. I) é exemplificado com uma sua versão representativa. Muitas destas versões são inéditas, provenientes das citadas recolhas dos alunos de Literatura Oral.
Se o vol. I é uma obra mais destinada a especialistas, o vol. II sem dúvida interessará (e, atrevo-me a dizer, fascinará) todos os amantes da tradição oral. E, além disso, constitui uma mina de ouro para os contadores profissionais de contos, que começam a ser já muitos em Portugal e no Brasil."

sábado, 5 de setembro de 2015

Um tesouro oculto de Araxá (MG)

Durante os dias em que estive em Araxá (MG), como convidado do Festival Literário daquela cidade, nos intervalos das apresentações, sempre via um senhor recolhendo latinhas e olhando, desconfiado, para o mundo que não percebia a sua presença. Quando, num momento de folga, já no fim do Festival, me aproximei e comecei uma conversa, ele me contou de sua história, bela e triste como a de tantos brasileiros humildes, mas nem por isso destituída de poesia. 


Seu Sebastião José Pereira, ou Tião Carreiro, nome que faz lembrar o grande expoente da verdadeira música sertaneja, negro, pobre, é um daqueles mestres da cultura popular que só um olhar sensível consegue captar em toda a sua grandeza. Ouvi dele, em pouco tempo, três histórias, todas elas de temática religiosa, verdadeiros tesouros da memória coletiva. Quando fui chamado ao microfone, contei uma das histórias narradas por ele, mas, infelizmente, não o vi mais.

Anotei o seu telefone e, em breve, espero fazer contato. O certo é que, em meu novo livro de textos da tradição oral, os contos de seu Sebastião têm presença garantida. E, se voltar à cidade, espero encontrá-lo para ouvir mais tesouros como os que retive no arquivo da memória, e que, doravante, farão parte de meu repertório. 

Uma dessas breves narrativas tem como protagonista São Francisco de Assis:

"Um dia, São Francisco foi em busca de Deus, desejoso de saber o que fazer para entender o coração dos homens. 

Deus apenas disse que fosse ao mar e, com uma moringa, retirasse a água até secá-lo. O santo, humilde, não questionou e logo começou o serviço. 

Passou um tempão naquele trabalho inútil, até que, cansado, decidiu ir ao encontro do Criador para tentar entender o seu desígnio.

Depois de ouvir as queixas do santo, Deus disse: 

— Francisco, você não compreendeu nada? É mais fácil secar o mar do que entender o coração do ser humano!”

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Boas novas da Velha Bahia


Dona Enedina, grande contadora de histórias
Estivemos na Bahis por quase um mês. E foram muitas, muitas histórias. Histórias engraçadas, exemplares, encantadas.


Histórias de vida, como a de seu Abílio, de Bom Jesus da Lapa, que sabe cor todo o texto da cavalhada local e rememora, saudoso, o tempo em que, metido na indumentária do rei mouro, montava o cavalo Ginete.


Histórias de rachar o bico, como as de seu Arnaldo Hãe Hãe Hãe, cacique pataxó do Caldeirão Verde, mestre nos ofícios da narrativa e da esculturaem madeira, fonte de uma história que batiza um de meus livros: O urubu-rei


Histórias como "Couro de Piolho, "Bu" e tantas mais, narradas por dona Enedina, do Alto da Palma, que tiveram como música de fundo o São Francisco, o rio de sua aldeia.


Histórias como as de seu Zé Cabeça, da Agrovila 07, 108 janeiros de muita sabedoria.


Histórias de Isaulite Fernandes Farias,Tia Lili, da Ponta da Serra, fonte de muitos contos que publiquei.


Histórias de dona Lira, cantadeira de romances e rezadeira notável, que me benzeu dos quebrantos e dos olhares maléficos. Dona Lira é cega de nascença, assim como sua irmã, dona Nenzinha. 

Herdaram a deficiência da mãe e são parceiras de escuridão de mais dois irmãos (um já falecido). São parceiras também na arte de encantar.

Personagens quase invisíveis nas comunidades em que vivem, porque, infelizmente, no sertão, já se cultivam hábitos e trejeitos cinzentos, que, sabemos, levam do nada a lugar nenhum.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Até breve, D. Maria Rosa

Tecelã de lindas histórias.
"Morreu dormindo, como um passarinho". Assim minha amiga Giselha Rosa Fróes narrou  o falecimento de sua avó, Maria Rosas Fróes, ocorrido na noite do dia 12 de fevereiro, em Brumado, Bahia. 

Dona Maria, mestra da cultura brumadense, baiana, brasileira, universal, contadora de histórias, cantadeira de romances, benzedeira, devota de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, era uma pessoa singular. 

As histórias das quais foi retransmissoras estão registradas nos livros:

Contos folclóricos brasileiros (Paulus, 2010);
Contos e fábulas do Brasil (Nova Alexandria, 2011);
O Príncipe Teiú e outros contos brasileiros (Aquariana, 2012);
Contos e lendas da Terra do Sol  (com Wilson Marques, Folia de Letras, 2014).

Viveu 97 primaveras e, sem saber ler nos livros, lia o mundo como poucos.

Fica a homenagem. A tristeza é provisória, mas a gratidão é eterna.

Em 2005, quando gravei as histórias de D. Maria.




quarta-feira, 14 de maio de 2014

Um tesouro da Costa Rica que o Brasil desconhece

Por Marco Haurélio.

Para quem leu as notas dos Contos Tradicionais do Brasil, de Câmara Cascudo, o nome de Carmen Lyra não soa estranho. Autora de Los Cuntos de mi Tia Panchita, coletânea de contos tradicionais da Costa Rica, sua terra natal, Carmen Lyra (1887-1949) é praticamente desconhecida no Brasil. Que eu saiba, jamais houve tradução desta obra, publicada em 1936, para o português, exceção feita ao conto El tonto de las adivinanzas, incluído por Aurélio Buarque e Paulo Rónai num dos volumes deMar de Histórias, talvez pelo fato de o protagonista ser o nosso João Grilo, celebrado na tradição popular, no cordel (por autores como o clássico João Ferreira de Lima e o contemporâneo Pedro Monteiro) e na peça Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna.

Mas há muito mais tesouros na coletânea.  La negra y La rubia é a versão costarriquenha de CinderelaEl pájaro Dulce Encanto,com a história do rei cego e do príncipe que sai em busca de um remédio para o pai, revive o livro bíblico de Tobias, sem faltar sequer o motivo do morto agradecido que salva o protagonista da traição dos irmãos invejosos. Com início semelhante, mas desfecho diferente, La flor del Olivar traz o motivo do osso que canta (para revelar um crime), presente nos Contos dos  Grimm e em inúmeras outras coletâneas. Uvieta, a história do sujeito aparentemente simplório que presta favores a personagens sagrados, recebendo em troca o dom de fazer entrar em um saco tudo o que ordenar, é o nosso velho João Soldado, importado de Portugal, cujo nome não é indiferente a quem leu o clássico da literatura de cordel escrito por Antônio Teodoro dos Santos. E ainda temos La cucarachita Mandinga, um simpático conto de fórmula (acumulativo), que vem a ser a nossa Dona Baratinha (ou Carochinha) que desposa o desventurado João (ou Dom) Ratão (Ratón Pérez na história compilada por Carmen Lyra).

quinta-feira, 20 de março de 2014

Parabéns, Bráulio do Nascimento


Não poderia ser mais apropriado: no Dia Internacional do Contador de Histórias (ou Dia Mundial da Narração Oral), 20 de março, o eminente folclorista Bráulio do Nascimento, responsável pela catalogação do conto popular brasileiro e autor de vários estudos que abrangem a contística popular, o romanceiro e a literatura de cordel, completa 90 anos de muita iluminação.

Parabéns, professor!

Catálogo do conto popular brasileiro.


A extraordinária Luzia Teresa



No Dia Internacional do Contador de Histórias, comemorado hoje, 20 de março, homenageio aquela que foi, comprovadamente, a maior narradora de contos da tradição oral deste planeta. Luzia Teresa dos Santos (1911-1983), paraibana de Guarabira, narrou ao saudoso folclorista Altimar Pimentel impressionantes 242 histórias (ou "estórias", como ele grafava), divididas em cinco volumes, três deles publicados pela Thesaurus Editora, de Brasília, dois ainda lamentavelmente inéditos. 

No seu leito de morte, em um hospital de João Pessoa, esta extraordinária mulher, que jamais aprendeu ler e escrever, dizia ainda conhecer muitas outras histórias.


Lembrá-la neste dia 20 de março é o maior preito que posso fazer à sua memória. E também à memória do notável folclorista alagoano Altimar Pimentel (1936-2008), o maior coletor de histórias populares deste país. De sua recolha, destaco, além dos três volumes publicados de Estórias de Luzia Teresa, Estórias de Cabedelo, Contos Populares de Brasília e Estórias do Diabo, todos publicados pela Thesaurus Editora